O martelo e os pregos

Fran Papaterra

Já que Augusto concordou comigo que, na maioria das vezes, o Facebook carrega irrelevâncias, quero aproveitar este espaço para compartilhar um pensamento. Quando surgiu a internet e foram ficando claras as facilidades que ela traria, se falou um resultado para o fenômeno que, pouco tempo depois desapareceu da pauta: disponibilizar mais tempo aos humanos para o lazer.

Não só quero resgatar esta profecia não realizada, como quero mostrar que aconteceu o contrário e, ainda, fazer um diagnóstico. Começo pelo contrário. E começo de um ponto de vista privilegiado pois, quando surgiu o primeiro Blackberry e vi um amigo (hoje ex-amigo porque perdi o contato totalmente talvez por conta do Blackberry) com um deles tomei uma decisão. Decidi e cumpro até hoje que não receberia e-mail exceto em um desktop. Decidi que comunicaria minha decisão a amigos, parentes, fornecedores e clientes de maneira a eles saberem que não contariam comigo plugado 100% do meu tempo. Este pessoal sabe também que desligo meu telefone celular após as 20 horas em dias de semana e o dia inteiro aos sábados, domingos e feriados. Continuo vivo, meu negócio continua bem e, creiam, sou bem feliz.

Escrevo sobre minha drástica decisão de anos atrás porque vejo pessoas com dedões viciados em Blackberry como narinas em cocaína. Instalou-se uma cultura de “o que eu estarei perdendo?” cuja conseqüência é perder o que está acontecendo. Por ter a compulsão de consultar o respectivo 3G, ou coisa que o valha, o cidadão não observa a cena linda e real que acontece em frente ao seu nariz. A televisão está com uma propaganda em que homens ironizam mulheres e mulheres ironizam homens ruins de internet. Só posso supor porque não tenho meios de constatar, mas me parece que homens bons de internet estão de tal forma aflitos por lerem seus e-mails que devem sofrer de ejaculação precoce. São bons de internet, mas ruins de cama!

Descrita a situação, vamos ao diagnóstico. O fato é que estamos em um mundo em que ouço gente dizer que adora tecnologia. E não são poucos os que assim afirmam! Basta um exemplo. Fui a uma festa nos tempos em que possuir um iPhone era diferencial e que só era possível os trazer do exterior. Quase perdi a festa, porque apareceu um sujeito recém chegado do exterior com um iPhone para mostrar. E dizia que podia consultar o Google Maps e eu perguntava para quê. E dizia que a imagem virava junto com o aparelho e eu perguntava para quê. E dizia que aumentava a imagem com um movimento de dedos e eu perguntava para quê. Não perdi a festa porque este pobre proprietário do iPhone disse que eu era um chato (o chato era eu?) querendo saber para que servia aquilo que ele me mostrava e foi procurar outro interlocutor. Achou outro cara que adora tecnologia e eles ficaram babando com a novidade.

Lembrei do cara que ganhou um martelo e ficou procurando pregos para martelar.

 

Augusto Pinto

Pela segunda vez em poucas semanas eu consigo concordar com o Fran, embora discorde de totalmente de sua opinião (?). Concordo 100% com o Fran:

  • Usuário de Blackberry, e assemelhados, são um pé no saco.
  • Também desligo meu celular religiosamente durante os finais de semana.
  • Apesar de ser um feliz proprietário de um iPhone e de um iPad, não fico excitado pela tecnologia in natura. Aliás, confesso que uso bem pouco meu iPad (que ganhei de presente de Natal de minha mulher), porque ainda acho o papel insubstituível para ler livros, jornais e revistas (tente levar um iPad para a praia…).
  • Acho, como o Fran, que a Internet e os gadgets tecnológicos tendem a tomar muito de nosso tempo e nos compelem a trabalhar 7 X 24.

Mas, nossa concordância para por aí. Achar que a Internet e as novas tecnologias vieram para nos escravizar, é o mesmo que botar a culpa no martelo que amassou nosso dedo. A culpa é sempre de quem usa (mal) a tecnologia. Os carros hoje são responsáveis pela poluição ambiental, pelo buraco na camada de ozônio e pelas mortes em acidentes de trânsito. A culpa é do Henry Ford? Não, a culpa é de quem usa. Da mesma forma, os defensivos agrícolas estão envenenando a natureza e contaminando o homem. A culpa é da Dow Química? Não, é dos maus agricultores. Aviões são usados como instrumentos de guerra. A culpa é dos irmãos Wright (ou do Santos Dumont, sem polêmicas, please)? Não, a culpa é da índole violenta do ser humano. E por aí adiante.

Ou seja, desde que o mundo é mundo o homem se especializou em deturpar o uso das boas idéias que teve. A mesma pedra usada para criar a roda foi usada para criar o tacape e daí para frente todos conhecem a história. Usar mal determinados recursos toma nosso tempo. Isso vale não apenas para a Internet e o Blackberry, mas vale também para a TV, para o rádio, para o tempo que gastamos lendo maus livros, ou assistindo maus filmes. Será que gastar duas horas assistindo ao Rambo é melhor que gastar o mesmo tempo na Internet? Depende. Depende dos propósitos, como sempre.

Eu faço o treinamento de otimização do tempo em minha empresa. Permitam-me repetir aqui alguns chavões que eu utilizo em meus cursos. Gestão do tempo se baseia em coisas muito simples de se entender, mas difíceis de fazer. Otimizar o tempo é como emagrecer: só vai acontecer se e quando você realmente quiser! Para otimizar seu tempo é preciso gerenciar prioridades, de forma contínua. Comer menos e mudar prioridades é chato, porque a gente sai da zona de conforto. Ambos requerem força de vontade e disciplina férrea!

É exatamente por falta de disciplina que as pessoas se deixam enrolar pelo e-mail no celular, que elas passam muito mais tempo vivendo virtualmente na Internet, do que vivendo de verdade aqui do lado de fora. Da mesma forma que é mais fácil viver comendo salgadinhos e ser gordo, do que ter uma vida espartana e estar em forma, também é muito mais fácil impressionar e conquistar uma gatinha (?) na Internet, do que na vida real.

Isso quer dizer que desta vez a humanidade caiu definitivamente na armadilha tecnológica da Internet, smartphones e outros gadgets tecnológicos? Eu acho que não. Como minha sábia vovozinha dizia, “quem nunca comeu mel, quando come se lambuza”. Hoje estamos literalmente tomando um porre de tecnologia barata, ao alcance de todos, e nem sempre isso foi assim. Vai passar e nós vamos achar o equilíbrio entre o exagero e o bom senso, como já ocorreu antes com muitas outras ondas de modernidade.

Nosso tempo é sempre o mesmo: 24 horas ao dia. Como o gastamos, ou o desperdiçamos, é uma decisão pessoal, mas largamente influenciada pelo meio em que vivemos. Na verdade, as novas ondas tecnológicas roubam nosso tempo das mais antigas. Isso significa que a Internet hoje rouba parte do tempo que gastávamos em frente à TV e no telefone? Sim senhor, é exatamente isso que está acontecendo. É provável que mais adiante outras ondas, como por exemplo a realidade virtual (viver num mundo paralelo, através de nosso avatar), possam roubar tempo da Internet. Aí o Fran, já velhinho e esquecido, vai querer me provar que realidade virtual é uma merda. Mais uma vez vou concordar com ele, embora discordando totalmente.

 

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