A Marina e a campanha na Internet

11 de agosto de 2010

Augusto Pinto

Depois do Obama em 2008 as campanhas eleitorais nunca mais serão as mesmas. Reproduzindo um trechinho de matéria do NYT a respeito: “Usando a Internet Obama reescreveu as regras sobre como alcançar os eleitores, organizar os doadores e apoiadores, gerenciar as notícias na mídia, acompanhar e moldar a opinião pública e enfrentar os ataques políticos, inclusive vindos de blogs, inexistentes quatro anos atrás.”

Claro está que essa experiência marcante não poderia deixar de influenciar a campanha presidencial brasileira de 2010. Todos os candidatos estão usando e abusando da Internet e das redes sociais para se aproximarem de seus (potenciais) eleitores. A Dilma inclusive comprou consultoria do Ben Self, guru Internet do Obama, para orientar seu marketing político online.

Mas, a despeito de todo o esforço, a Internet ainda se constitui um desafio para aqueles que se acostumaram simplesmente a disparar informações, muitas delas mentiras grosseiras, para cima do eleitor. E, como sabemos, na Internet a manipulação da informação e a mentira não ficam impunes, se transformando numa arma contra quem fez o “disparo torto”. Além disso, os internautas demandam espontaneidade de seus interlocutores. Todo o sucesso do Obama só aconteceu porque ele realmente se engajou, de peito aberto, no debate com os eleitores nas redes sociais. Isso expõe muito e os políticos brasileiros odeiam entrar em jogos onde as cartas não estejam previamente marcadas.

Dos muitos presidenciáveis, apenas três podem alcançar o trono do Lula: Dilma, Serra, ou Marina. Claro está que cada uma dessas três personagens têm perfis muito diferentes, o que pode facilitar, ou atrapalhar, sua atuação na WWW. A Dilma é mandona, “queixo duro”, prolixa e dificilmente terá sucesso num corpo a corpo online com os eleitores. O Serra, apesar de também “queixo duro”, é mais transparente e se dispõe a enfrentar debates de peito aberto. Como ele é notívago, manda muito bem no Twitter, mesmo que de vez em quando se meta em algumas frias. E aí resta a Marina. Ah, a Marina é nosso Obama de saias, entrou na Internet com a naturalidade de “pinto no lixo”.

A Marina dificilmente vai virar a tendência de vitória da Dilma, até pela grana, pelo poder de influência do executivo e pelo carisma do Lula, mas eu acho que ela ainda vai fazer estragos no terreiro dos outros candidatos, graças à Internet. A campanha da Marina na Internet está muito bem bolada.  Existe o site de campanha, o ”Minha Marina”, e um blog para interagir com os eleitores. No “Minha Marina” é possível baixar-se o kit de campanha, com fotos, marca, ringtones, jingle, wallpapers, e banners. Enquanto isso, o blog da Dilma confunde “colaboração” com pedir dinheiro.

A Marina vem usando o Twitter (@silva_marina) para angariar apoio, numa campanha muito bem feita.

As diretrizes de governo da Marina são amplas, estão publicadas na web e foram desenvolvidas em parceria com a sociedade.

Enquanto isso, as diretrizes da Dilma, foram publicadas na Internet sem nenhuma visão de direcionamento. São fragmentos de intenções, calcadas em ideologias, a maioria delas de cunho nacionalista, tais como prioridade para a reforma agrária, casamento entre homosexuais, tributação de grandes fortunas, redução da jornada de trabalho e controle dos meios de comunicação.

A Marina não terá marketeiro em sua campanha. Ela está desenvolvendo um movimento espontâneo pela Internet, os “Marketeiros Solidários”, constituído por profissionais e interessados em criar slogans, materiais de campanha, e bolar idéias criativas para fazer o movimento “Marina Presidente” atingir um grupo maior de pessoas.

Outra ideia legal da campanha da Marina foi a “Casa de Marina”, um espaço de encontro, debate e reunião das pessoas, de distribuição de material de campanha, onde pessoas podem obter informações sobre Marina, suas idéias, seu programa de governo e as formas possíveis de apoio e colaboração com a campanha. É um movimento de rede social física, iniciado sempre pela Internet.

À semelhança do Obama, a Marina também promete usar a Internet como ferramenta de governo, permitindo que os cidadãos opinem sobre suas ações e projetos de lei a serem enviados ao congresso.

Será que isso tudo vai dar resultado e virar o jogo a favor da Dilma? Difícil dizer, mas eu pessoalmente duvido. O fato é que hoje a Marina lidera em share positivo na Internet, segundo pesquisa de início de julho da MM Online, em parceira com a iGroup,, com 43% contra 34% da Dilma e longínquos 22% do Serra (lamentável!).

Qualquer que seja o resultado, a campanha da Marina será um divisor de águas com relação ao uso da Internet como um canal importante(íssimo) de comunicação com o eleitorado.

PS: eu não vou votar na Marina, pois temos colorações ideológicas distintas…

Fran Papaterra

É indiscutível o poder da internet. Acho que este poder será maior quando todos aprendermos a usar e, paralelamente, houver a inevitável migração de TV, cinema, música, notícias, livros para quase que exclusivamente a internet. A migração se fará por tecnologia e por hábito. Por exemplo, eu ainda compro CD, minhas filhas nunca compraram CD. Minhas filhas ainda (atenção para o ainda) lêem livro em papel.

Porém, acho que hoje, até porque ainda não se aprendeu a usar este veículo absurdamente revolucionário, o poder da internet é super estimado. Divulga-se o número de usuários do Face Book, mas não vi muita coisa sobre a qualidade do que se comunica lá. Eu aceitei entrar nesta rede, devo estar nesta estatística, e, simplesmente, não consegui usar. Achei uma bagunça! Toda hora tem gente querendo ser minha amiga. Amiga? Como assim, não conheço a pessoa e ela quer ser minha amiga? Parece coisa de recreio de escola de primeiro grau: “quer ser meu amigo?”.

Tudo isto para dizer que discordo da previsão do Augusto de que Marina vai virar o jogo através da internet. Usarei argumentos que pouco têm a ver com minha resistência em participar das redes sociais. Redigi os dois parágrafos acima para você que me lê desconfiar de mim. Como uso pouco a internet, pode ser que não esteja vendo coisas que quem usa vê.

De qualquer forma, acho que as comparações com os Estados Unidos devem ser relativizadas e cito cinco fatores inquestionáveis para tal:

  1. Lá a internet tem penetração maior do que aqui
  2. Nos Estados Unidos não há horário eleitoral gratuito na TV
  3. Lá não é obrigatório votar e a internet foi importante para convencer o cidadão a sair de casa e votar.
  4. Aqui contribuem para campanha apenas empresas com interesse em obter benefício do Governo. As contribuições individuais são ínfimas.
  5. Muito do que se fala do uso que Obama fez da internet. Mas pouco se fala que este uso foi para a indicação dele para concorrer pelo Partido Democrata. Neste ponto, Obama e a internet foram campeões, pois a concorrência era ninguém mais, ninguém menos que Hillary Clinton. Mas, aqui no Brasil as indicações dos partidos já ocorreram e não se sabe como ocorreram. Não houve internet que convencesse o Lula que o PT não indicaria a Dilma nem Aécio que convencesse o Serra a desistir.

Adiciono ainda uma dúvida pessoal com relação ao habitual uso da internet em terras brasileiras. Aqui, me parece, se usa a internet mais para reforçar opiniões já formadas e forjar notícias. Veja-se a incrível capacidade dos políticos, principalmente ligados ao PT, de produzirem dossiês contra adversários.
Isto não quer dizer que a internet não seja o veículo do futuro, inclusive com relação à política. Mas, aqui no Brasil, estamos muito atrasados nesta e em outras matérias. O que quer dizer que aqui o futuro vai demorar mais para chegar, se é que chegará.

Talvez o país do futuro não tenha futuro.


Um novo veículo – tudo novo

14 de julho de 2010

Fran Papaterra

Bastaria uma olhada no resumo do que o dicionário traz para definir a palavra interesse para, perdão pelo trocadilho, se interessar pelo assunto.

Desperta interesse o que:

1. é importante;

2. é digno de atenção;

3. traz vantagem pessoal;

4. gera possibilidade de lucro (ganho, ou vantagem, de qualquer tipo).

“Interesse” vem do latim intĕrest, que originou também a palavra “juros” em inglês e que possibilita ser sinônimo de “lucro”. Convenhamos que esta última palavra é, a rigor, a única que movimenta o mundo dos negócios e, segundo Adam Smith, a que traz progresso à sociedade.

A palavra “interesse” valorizou-se ainda mais quando foi adicionado um novo veículo de comunicação no mundo. Pense em você assistindo TV e alguém lhe dizendo “depois dos comerciais …”. Claro que você não tem interesse em ver a Marília Gabriela dizendo que ela é jornalista e que a Vivo (ou a Claro, sei lá) tem uma visão que eu sei lá qual é. Perceba que eu assisti ao anúncio que uso como exemplo, mas não sei a marca e nem sei o que é anunciado. Só me lembro da propaganda porque fiquei indignado com uma jornalista servindo uma marca e, pior, qualificando-se, no serviço que presta, como jornalista. Mas, não nos interessa (olha a palavra aí de novo) a Marília Gabriela, mas o veículo, a TV.

Por que eu assisti ao comercial? De novo, sei lá, mas tenho pistas. Preguiça é uma hipótese, embora alguém possa contestar a preguiça de apertar o controle remoto, mas, convenhamos, somos todos macunaímas. Falta de confiança no veículo é uma possibilidade na medida em que sei que vou procurar coisas melhores e não vou encontrar. Não querer perder o que vem depois dos comerciais é outra explicação, mas não importa a razão, a verdade é que recebemos mensagens que não nos interessam.

Felizmente, um novo veículo de comunicação está acabando com esta inércia. Na internet não interessou, cliquou-se outro assunto. Clicar não dá preguiça, há milhões de opções, eu posso mudar de assunto e voltar ao assunto antigo, diferente da TV que o veiculado sai do ar após a veiculação.

Assim nos outros veículos era importante ser interessante; na internet é fundamental. Vale a pena destacar a segunda definição de “interesse” dada pelo dicionário: digno de atenção. Lembre-se que eu não prestei atenção na propaganda com a Marília Gabriela, tanto que não sei o que é e nem quem é. Chutei algumas hipóteses de porque assisti ao comercial e nenhuma delas foi “porque me interessei”. Não me interessei, portanto, não prestei atenção.

Na internet, as opções são tantas que, para obter atenção, além do interesse, temos que criar um novo truque: participação. Cabe ao emissor da mensagem criar, pela ordem, interesse em saber do que se trata, interesse em participar, participação e, assim, conseguir a atenção do destinatário da mensagem. Pessoas participam encaminhando a mensagem para amigos, comentando, acrescentando, interferindo, zoando, etc, enfim fazendo social media.

Nenhuma destas ações era possível em outros veículos no volume que a internet permite e, mais importante, na maneira que a internet exige. Abaixo a escravidão do público. Viva a internet e as redes sociais!

Augusto Pinto

Amigos, desta vez não vou escrever nada, mas apenas linkar para outro post, mais ou menos sobre o mesmo tema, que fiz em meu outro blog (Chega Mais).

http://migre.me/WVxl