A bola não é o jogo

Fran Papaterra

A Jabulani saiu mais famosa da última copa do mundo do que muitos craques do time campeão. Nem por isso o público confundiu a bola com o jogo, embora muitos técnicos, inclusive nosso Dunga, culpassem a Jabulani (levinha e imprevisível) pelo má técnica de alguns de seus jogadores.

No entanto, em se tratando de comunicação corporativa, é muito comum entender-se por “apresentação” o que deveria ser entendido apenas como “o arquivo de PowerPoint”. Muita gente diz “a apresentação está pronta” quando o que deveria dizer seria “o arquivo de PowerPoint a ser utilizado na apresentação está pronto”. Esta sutileza permitiu o surgimento de agências que apenas embelezam slides de PowerPoint, mas que “vendem apresentações de negócios”.

Assim, quando se aprecia um trabalho encomendado para este tipo de agência, é errado se dizer que “a apresentação ficou ótima”, mesmo quando o público não entendeu nada. O certo seria dizer “os slides estavam lindos”. Evidente que o que interessa é que o publico capte a mensagem, mesmo que não goste dos slides.

A consequência de tal confusão é que o protagonista da apresentação, que deveria ser o apresentador, acaba sendo o ppt. Acontece que apresentar-se em público requer coragem e preparo. Na falta dos dois, joga-se o protagonismo para quem deveria ser coadjuvante: os ppt’s. Sobre este assunto, veja que coisa interessante me aconteceu na semana passada.

Uma grande empresa realiza um evento interno trimestral no qual a diretoria se comunica com seus mais de mil colaboradores. A reclamação do público é sempre a mesma: as apresentações são chatas. Por diversas circunstâncias, desta vez, ao invés de melhorar o ppt, foi decidido melhorar os apresentadores. Foi contratado um treinamento de oratória, que na verdade era mais que oratória, era preparo para se apresentar em público e não envolvia só a voz, mas também o corpo (gestos) e, principalmente, como se sentir seguro em apresentações.

O profissional contratado para o treinamento assistiu ao vídeo do evento anterior e chegou à conclusão que, com aqueles arquivos de PowerPoint, o treinamento seria inútil. Seria algo como tirar água de pedra. O ppt travava o apresentador.

Por isto, ele me chamou para uma oficina de duas horas para propor outra abordagem para o ppt. Por haverem entendido que o protagonista deve ser o apresentador, os diretores também entenderam que o ppt é fim do processo e foi aí que a ordem dos fatores, diferente de quando se trata de multiplicação aritmética, alterou o produto.

O resultado do novo produto foi que, devidamente preparados para se apresentar em público, os diretores estavam disponíveis para jogar fora os ppt’s que foram produzidos, repletos de números, sem sequência lógica e sem nenhum ponto interessante para o público. No lugar do que foi jogado fora entrou uma história contada pelos diretores. A história era uma analogia com a banda que foi contratada para abrir o evento.

Quase todo evento tem uma atração. Trata-se de uma forma de tornar a coisa menos chata. É mais ou menos assim: “a diretoria da empresa convida seus colaboradores para participar de um encontro no qual tocará a banda tal. Venha, porque vai ser bom. Em seguida você será obrigado a ouvir umas apresentações chatas da diretoria, mas a atração é legal”.

Invertemos a lógica. Já que a atração é legal, propusemos estender a experiência do público e aproveitar o clima. Por exemplo, havia a necessidade de dizer que é importante que cada um dos presentes exerça bem sua tarefa, mas tão importante quanto conhecer seu trabalho é ouvir as outras áreas da diretoria e prestar bons serviços internos. Como a atração era uma banda, dissemos que o músico conhece bem seu instrumento, estuda técnica e teoria e também escuta o que os outros músicos da banda tocam. Só assim o som chega harmônico aos ouvidos do público. Para ajudar a ilustrar a palestra e para que o apresentador tivesse um guia, foi feito um arquivo de PowerPoint, invertendo a ordem dos fatores.

No fim do evento, os diretores vieram me perguntar como eles se saíram. Pergunta pertinente, pois os protagonistas eram eles. Ah! E elogiaram o ppt que havíamos produzido porque ele foi um bom coadjuvante. Tanto assim que dos cento e tantos slides gerados no processo anterior não aproveitamos nenhum e geramos trinta outros, sem texto e sem números, como apoio da analogia com a música. Sem texto porque o apresentador sabe falar e sem números porque números são chatos nestes eventos.

 

Augusto Pinto

Por falar em futebol, gostaria de lembrar que a chamada “bola de capotão no. 5”, usada na primeira Copa do Mundo que o Brasil ganhou (1958), e onde o Pelé encantou a todos, era feita de um couro grosseiro, que em dias chuvosos se encharcava e ficava bem mais pesada, o que dificultava a precisão dos chutes.

Eu não sou um doutor nem em apresentações, nem em ppt’s, ao contrario do Fran, mas posso dizer que vi grandes apresentadores em ação. Me lembro de dois deles, ambos espetaculares, mas com estilos e estratégias bem diferentes.

O primeiro deles foi um VP de vendas da IBM, que segurava uma hora de kick off de vendas, para toda a empresa, “no gogó”, usando apenas uma transparência e uma canetinha (de uma só cor).  Nessa época a Microsoft ainda não tinha inventado o ppt, mas os apresentadores já eram viciados em retro-projeção, com dezenas de transparências tão chatas quanto os atuais ppt’s.

Esse executivo da IBM subia ao palco com três ou quatro assuntos para comunicar e motivar o público. Então, ele escrevia no slide, um bullet por vez:

  • Resultados do ano 1980
  • Metas para 1981
  • Estratégias
  • Sua responsabilidade

Em cada um desses bullets ele gastava uns 15 minutos, contava piadas, ilustrava, de vez em quando consultando anotações feitas num antigo 80 colunas, e o tempo todo encantava a platéia, tornando-a cúmplice de seus objetivos. Podemos dizer que esse cara era um comunicador nato? Nem tanto. Fora do palco ele tinha fama de irascível e malcriado, mas quando atuando diante de uma grande platéia ele era um profissional extremamente bem preparado. Ele selecionava cada fato a ser comentado, cada ilustração, cada ênfase, era perceptível o trabalho de coleta de dados, timing bem planejado e ensaio do roteiro. Como na maioria das vezes, o resultado era 90% de transpiração e 10% de inspiração.

Minha segunda referencia de grande apresentador é O Walter Longo, que ao contrário do executivo da IBM, dá grande importância ao material de apoio, geralmente ppt’s, reforçados por outras mídias (principalmente vídeos e telas de páginas da internet). O Walter é um showman. Eu assisti duas vezes a uma mesma apresentação sua (mesmos ppt’s, com o perdão do Fran), no mesmo ano. Nas duas, um ponto em comum: ele apresentava os slides de costas para a projeção (que ele já conhecia de cor) e olhando todo o tempo para seu público (como deveria ser sempre). Em cada uma das duas oportunidades ele usou o mesmo set de slides para contar histórias bem diferentes. Ou seja, os slides podem ter envelhecido, mas suas histórias estavam atualizadíssimas.

Nos dois exemplos um ponto em comum. Uma boa apresentação depende preponderantemente de:

  • Um apresentador bem preparado.
  • Fatos interessantes, atualizados e bem ilustrados, independentemente dos ppt’s.
  • Preocupação constante do apresentador com sua platéia.

Ou seja, temos aí duas histórias iguais, embora os estilos fossem totalmente diferentes e que entre uma e outra tenham se passado mais de 25 anos. Resumindo, o Fran tem razão: o Pelé é mais importante que a bola de capotão.

 

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