Inveja, a mãe de todos os pecados

Augusto Pinto

Recentemente li uma fábula, supostamente Indiana, de autor desconhecido. Vou repetí-la para vocês, pois é muito instrutiva.

“Numa noite de lua, lá ia o vagalume, voando e iluminando seu caminho. Mais abaixo uma serpente o seguia, incansável. De repente, o vagalume notou a perseguição obstinada, mas continuou seu vôo, certo que cedo ou tarde a serpente desistiria. Ledo engano. As horas se passavam e metodicamente a serpente se arrastava abaixo do vôo do vagalume. Aos poucos as asinhas de nosso amigo começaram a pesar e o mêdo tomou conta de seu coraçãozinho: a serpente é mais forte que eu e vai acabar me devorando, pensou o bichinho. Mesmo assim, continuou voando, até o limite de suas forças. Quando não podia voar nem mais um metro, pousou ao lado da serpente e fez um pedido, humildemente:

– Dona serpente, já que é certo que serei devorado, pelo menos me dê uma satisfação, me explique o porquê de sua obssessão. Por acaso os vagalumes pertencem à cadeia alimentar das serpentes?

– Não, respondeu a cobra.

– Então será que você me odeia, por alguma razão.?

– Também não, respondeu a cobra.

– Você então está faminta?

– De jeito nenhum.

– Mas, então porquê você quer me devorar???”

– Porquê você brilha!

Por isso, amigo injustiçado (e quem não é?), cuidado com seu brilho. Faça sempre o melhor que possa, o tempo todo, mas tente não aparecer muito, pois a inveja literalmente mata.

 

Fran Papaterra

Aproveito a deixa do Augusto para comentar o significado que brilho adquiriu recentemente. Pensemos nas assim chamadas celebridades. Muitas pessoas são célebres porque são célebres. Há um tipo de gente que gosta de sair na revista Caras. Não tenho nenhuma fonte segura, mas parece que há, em Caras, muito publi-editorial, entendido este termo composto como a matéria com cara de editorial, mas que é paga, o que a caracteriza como publicidade.

Quando a revista foi lançada eu, que gostaria de ter uma revista com o nome Cérebros, supus um fracasso comercial. Como o vagalume da parábola do Augusto: ledo engano. Não só Caras é um sucesso como muitas outras revistas parecidas foram lançadas e continuam por aí.

Interessante a onipresença de Caras em salões de cabeleireiros. Nos templos da futilidade, da aparência acima de tudo a “literatura” (não deixa de ser, no sentido, perdão, literal da palavra) que impera é Caras.

Eu que ando muito a pé e corro pelas ruas, quase que diariamente, peguei a mania de ler as capas de Caras nas bancas de revista. Sou informado de que acabou o casamento de duas pessoas sobre as quais nunca ouvi falar, com quem Hebe Camargo jantou e onde Adriane Galisteu passou as férias.

Sobre as férias, tenho uma história ótima. Fui , acho que, a Portillo esquiar uns anos atrás. De repente, em uma colina, bem no alto, havia um aparato cinematográfico: câmaras, luzes, equipes, fios e …. a Tiazinha, naquela época uma celebridade e hoje, sem a necessidade de nenhuma serpente a devorá-la, sem o antigo brilho e limada da pauta da gloriosa Caras. Mas, na época Tiazinha causava inveja a várias serpentes. Porém Tiazinha não sabia, ou não queria esquiar. As tomadas de cinema não eram para cinema, eram para fotografia. Nossa mascarada (lembram-se? Ela usava máscara tipo Zorro.) estava sendo fotografada para Caras. Fazia posição de quem ia descer a pista e clique nela. Fazia trejeitos de quem estava descendo a pista e fotografada era. E assim foi até que me desinteressei. Esqueci o assunto e um dia, retido por um sinal vermelho em algum ponto de Pinheiros, li na capa de Caras: Tiazinha esquia em Portillo.

Esquiar, não esquiou: sou testemunha. Mas, lembro que, no fim da tarde, li no hotel de Portillo que haveria aula de yoga e para a aula de yoga lá fui eu. Quem estava na sala? Quem respondeu Tiazinha, acertou. Lá estava ela, sem máscara, com um colant (é assim que se escreve?) a fazer jus ao nome de tão colado ao corpo que estava, mas, isto não era nada. Tiazinha não esquiava, mas, meu caro leitor, Tiazinha era ótima (não só) de yoga. As posições que ela sabia (e ainda deve saber, pois deixar de ser celebridade não apaga alguns dons) eram de fazer babar qualquer serpente….

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