Samba do Crioulo Doido

9 de novembro de 2010

Fran Papaterra

Sérgio Porto talvez não seja conhecido dos mais novos, mesmo se eu revelar o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta. Este cronista escreveu o Samba do Crioulo Doido, supondo um ignorante escrevendo um samba enredo sobre a história do Brasil. A letra da música é uma bagunça e, mesmo quem não ouviu falar do autor, talvez tenha ouvido falar de Samba do Crioulo Doido como uma analogia a um raciocínio tortuoso.
Apresentações com PowerPoint parecem muito com o referido samba. O crioulo do Stanislaw era doido e isto explica, já no título da canção, a bagunça. Como quem prepara arquivos de PowerPoint é aparentemente são, precisamos encontrar outros motivos para ser cabível a comparação do resultado. Baseio-me em um arquivo anônimo que recebi pela Internet.
O tema é reduzir o consumo de água engarrafada. Precisei estudar muito o conteúdo, porque se trata de um Samba do Crioulo Doido. Cheguei à conclusão que há três motivos para se reduzir o consumo de água engarrafada e todos sugerem que este consumo faz mal às pessoas:

  1. Água engarrafada é cara
  2. O meio ambiente é prejudicado
  3. É possível que cause câncer

Pois o samba está distribuído assim:

  1. Água engarrafada é cara – slides 4, 5, 12, 13 e 14.
  2. O meio ambiente é prejudicado – slides 6, 7, 8, 9, 10, 14, 15 16, 17 e 20.
  3. É possível que cause câncer – slides 5, 14, 18 e 19

Toma-se o assunto, abandona-se o assunto e se retorna a ele. No slide 5 foi afirmado que água engarrafada pode causar câncer. Quem estiver prestando atenção, ficará curioso, pois o assunto é abandonado e se reaparece no slide 14. Desperdiçou-se a curiosidade de quem assistia à apresentação.
Vou explicar a doidice do executivo com um único diagnóstico: pensar por slides.
O PowerPoint tem um mérito enorme sobre o flash: não só os slides podem mudar de ordem como novos podem ser inseridos e outros podem ser eliminados. Em outras palavras, é fácil editar e aí mora o perigo. Já que é fácil, se descuida e a lógica fica sacrificada. Quem consegue prestar atenção em algo que muda de assunto e volta aleatoriamente?
O fato é que pensar por slides quase que proíbe que se utilize técnicas de narrativa, que se contem uma história.  Sem o uso do PowerPoint, eu diria que você não deve consumir água engarrafada porque:

  1. Este consumo pode causar câncer. O calor pode liberar produtos químicos da garrafa para a água. Como você não sabe em que temperatura a garrafa foi transportada, pode ser que você venha a ter câncer.
  2. O meio ambiente paga pela água engarrafada que você consome. Só nos Estados Unidos vão para a atmosfera 2.500.000 toneladas de dióxido de carbono, devido à fabricação das garrafas plásticas. Lá mesmo são jogadas 24 bilhões de garrafas no lixo.
  3. É muito caro: um americano gasta, em média US$ 400,00 por ano com água engarrafada.

Com o PowerPoint ficou quase impossível saber porque não consumir água engarrafada.

 

 

Augusto Pinto

Bem quem entende de PPT é o Fran, ou melhor, antes que ele me jogue um caminhão de melancias, entende de apresentações bem elaboradas, com boa narrativa e boa qualidade de conteúdo visual. Então eu vou puxar o tema para minha zona de conforto, que é a comunicação corporativa, em particular as conversas pessoa a pessoa, em reuniões de alto escalão.

 

Quando alguém é convidado para um papo com o presidente do conselho, com o CEO, ou com o C-Qualquercoisa, logo se prepara para uma conversa elaborada, ponteada por citações inteligentes, conceitos sugeridos de forma indireta, ou seja, uma conversação que, otimisticamente, será cheia de voltas, firulas e meneios. Algo que faria o Stanislaw se orgulhar de sua criação.

 

Porém, o que muitas vezes ignoramos, é que o C-level só chegou lá graças à sua objetividade e espírito prático. Via de regra são pessoas simples, com hábitos simples, de bem com a vida e que curtem tentar sempre transformar seu dia a dia tenso em algo divertido.

 

Ontem almocei com um executivo, com MBA em Harvard e doutorado em Duke, que nos últimos dez anos montou e vendeu vários negócios, tendo abocanhado ao longo da década algo em torno de uns R$ 200 milhões! Fui preparado para uma conversa sofisticada e densa. Para minha surpresa, da salada ao cafezinho o papo foi leve, ponteado de brincadeiras e piadas. Falamos de futebol, da Dilma, da internet e até de seus negócios. Enquanto eu esperava o manobrista trazer meu carro, o executivo embarcou num taxi velho, sem ar condicionado.

 

Se deixarmos de lado os estereótipos, vamos descobrir que do porteiro ao CEO, somos todos iguais. Ninguém gosta de conversa fiada, nem de formalismo excessivo e muito menos de verborragia. Num almoço de negócios, como numa reunião face to face,  existe um ritual que agrada a todos. Esse ritual recomenda que não nos afobemos em entrar no assunto de nosso interesse, nem sufoquemos nosso interlocutor com uma tonelada de informações, onde provavelmente 999 kilos são bullshit.

 

Um encontro de negócios bem sucedido é o coroamento de uma estratégia baseada na paciência. Lembra muito um primeiro encontro com a garota de seus sonhos. É preciso ter calma. Ouvir bastante, falar dentro do contexto, procurar ser educado, agradável e divertido, até surgir a brecha para encaixar o assunto de seu interesse, desejavelmente colocado pelo nosso interlocutor.

 


I want to hold your hand

27 de outubro de 2010

Fran Papaterra

Li uma entrevista do Paul McCartney na qual ele diz que, no começo dos Beatles, ele e o John Lennon deliberadamente usaram muito a palavra “você”, “you” no caso. Faziam isto porque as fãs sentiriam que a canção era para elas.

Não podemos esquecer que, por trás dos Beatles, havia um homem de negócios de nome Brian Epstein. Quando este cidadão morreu o negócio Beatles degringolou. Espertos, os Beatles e o Brian Espstein ainda punham a primeira pessoa do singular nas canções para ficar mais íntimo ainda. E, então, tivemos I want to hold your hand, From me to you, She loves you, PS I love you, I wanna be your man, If I fell, I call your name, I am happy just to dance with you.

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Não mate o mensageiro

13 de setembro de 2010

Augusto Pinto

Eu estou terminando de ler (de um só fôlego), a trilogia da série “O Conquistador”, de Conn Iggulden. Se estiver curioso faça o download do 3o. livro da série e o melhor deles. A série narra a saga da vida de Genghis Khan, um conquistador implacável. Gengis, valorizava muito os mensageiros, que às vezes tinham que atravessar o deserto para dar uma mensagem que cabia numa simples frase. Mesmo assim, quando a mensagem era muito ruim, ou quando ela não poderia ser espalhada, Gengis não titubeava em matar o mensageiro na hora.

Não sei se vem daí a história, mas ficou a tradição segundo a qual os arautos das más mensagens merecem a “morte”. Por isso, no mundo corporativo um dos tipos de comunicação que mais assusta ao executivo é aquela que o encarrega de dar uma má notícia. Pode ser a demissão, uma má avaliação anual, explicar porque o cara foi preterido numa promoção, porque seu departamento não vai fazer os objetivos do ano, porque a empresa está perdendo dinheiro, etc, etc, etc, o que não falta no mundo corporativo são as más notícias. As más notícias podem ser passadas para um funcionário, ou para seu superior, em qualquer dos casos é uma autêntica “saia justa”.

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