Contar e relatar

20 de outubro de 2010

Augusto Pinto

“Quem conta um conto, aumenta um ponto”, como diz o velho ditado. Por trás dessa frase a sabedoria popular: realmente, quando contamos algo botamos nossa imaginação para funcionar, pois um conto para merecer esse nome precisa ser interessante.

Quando o sargento pede ao soldado que “relate os fatos”, ele não quer enrolação, apenas o que realmente interessa. Já quando um amigo, com uma cervejinha à sua frente, lhe pede para contar uma história, está esperando que você o distraia.

Isso quer dizer que quando contamos algo devemos inventar? NÃO! Mas, quem conta vai um pouco além do simples relato dos fatos, pois coloca alegorias e hipérboles (bonita essa, hein) na sua narrativa, visando torná-la interessante para seu público.

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Comunicando para surdos

29 de setembro de 2010

Augusto Pinto

Imagine-se à frente de uma platéia de surdos para comunicar uma mensagem complicada. Pra tornar ainda mais difícil, imagine que você não tem disponíveis um projetor e os confortáveis PPT’s. Difícil, hein?

De certa forma é isso que está acontecendo nesse exato momento no Brasil. A mídia, em massa, nas última semanas caiu de pau sobre a Dilma e seu ventríloquo (o Lula), com base nos escândalos, quase diários, e no medo do controle da mídia (uma situação parecida com a da Venezuela, ou da Argentina) pelo próximo presidente. As últimas três ou quatro capas da  Veja foram sobre corrupção no governo federal, o Estadão em editorial declarou sua preferência pelo Serra (e explicou claramente porque), a Folha que sempre teve um pezinho mais à esquerda tem batido direto e nada disso tem influenciado os eleitores. A mídia está literalmente tentando se comunicar com um público de surdos (seja por ideologia, seja por interesse, ou por simples ignorância).

O mesmo tipo de problema as empresas encontram em sua comunicação corporativa, sempre que precisam vender uma ideia nova, ou antipática, que mexa com interesses arraigados, ou que simplesmente seja difícil de explicar (quebra de paradigmas). O público corporativo, colaboradores e clientes, nessas circunstâncias se comporta exatamente como o eleitorado do Lula (e Dilma, por tabela): não ouve, ou não quer ouvir. O que fazer a respeito?

A fórmula é muito simples, a mesma que se tivesse sido seguida pela oposição teria evitado o possível constrangimento de uma derrota no primeiro turno: fale a linguagem de seu público, desça até ele. Evangelização é um exercício de humildade. Vocês já devem ter lido, ou pelo menos certamente ouvido, as parábolas de Cristo, criadas para converter o povo ignorante da época. Cristo falava e explicava suas ideias por analogias. As parábolas nada mais eram do que fábulas para “vender” ideias inusitadas, como por exemplo o “ama ao próximo como a ti mesmo”, para povos que acreditavam e praticavam o “olho por olho, dente por dente”.

As tarefas de evangelização no mundo corporativo são muito mais fáceis do que foi para Jesus vender suas ideias de igualdade e fraternidade para o povo da Galiléia. Apesar disso, as falhas são contínuas e constantes. Qual a razão? A mesma que levou o PSDB a tomar uma sova do PT e aliados: arrogância.

Explicar novos conceitos, ou conceitos que não interessam, é um exercício de humildade, que implica em descer até o nível de compreensão do público e explicar as coisas na sua linguagem. Isso para um CEO é tão tedioso quanto para o Serra explicar porque as privatizações são positivas para o povo. Coloque-se na pele de um funcionário público, ou um sindicalista, a ingrata tarefa que o Serra teria pela frente.

Evangelização é uma tarefa árdua, que requer mais do que didática, paciência e persistência. É mais fácil se omitir, ou simplesmente passar a versão técnica, com casca e tudo, para mais tarde culpar o público, que não entendeu a mensagem porque é burro.

Se você é o CEO de uma empresa e tem que explicar porque os bônus de final de ano não serão pagos, pode acreditar que vai precisar muito mais do que fatos. Explicar que as metas não foram batidas, que a empresa deu prejuízo, que o concorrente foi melhor, são argumentos que não sensibilizam àqueles que vão ter que abrir mão de seus sonhos de Natal. Principalmente, quando eles olham para cima e vêem que a realidade de sócios e c-level não foi afetada com pelos mesmos problemas. Ou seja, acresça aí uma outra palavrinha mágica: coerência.

Fran Papaterra

Há uma famosa história na qual um assessor de marketing de Bill Clinton explica àquele que era um dos homens mais poderoso do planeta o que leva o eleitorado a eleger alguém. A frase era esta, ou parecida com esta: it’s the economy, stupid”. É a economia, idiota.

Não nos iludamos, o ser humano não vale nada. Se a vida dele melhorou, ele vai votar em quem ele identificar, corretamente ou não, que é o político responsável por esta melhora. O que importa é a vidinha dele. Se o cara rouba, se a turma dele se apega a cargos públicos para deles tirar vantagens pessoais, pouco importa. A vida deles melhorou.

Lula sabe que a economia elege e não é idiota. Associou a Dilma a ele e o eleitor quer que a coisa siga como estava. É a metáfora do “em time que está ganhando não se mexe”. Por isto, José Serra hesitou em atacar Lula. O time estava ganhando.

O que aconteceu foi que Lula tinha uma mensagem única e simples: Dilma é a continuidade. Serra, por sua vez, ficou com muitas mensagens que é muito parecido com não ficar com nenhuma. Já a Marina….

Marina tinha a mensagem do verde, da ecologia, do planeta limpo. Atingiu um determinado patamar de intenção de votos. Quando a continuidade do Lula soou para alguns ouvidos (os menos surdos da metáfora do Augusto) como a continuidade da corrupção, da impunidade, esta população ficou órfã e passou a querer mudança. Olhou para o Serra e viu Eduardo Azeredo envolvido no “mensalão” a ponto de ser o criador do Marcos Valério, viu compra de votos para reeleger FHC, viu dinheiros esquisitos nas privatizações e encontrou na Marina uma segunda mensagem: a ética. O resultado é que a Erenice faz Dilma cair, Serra ficar onde estava e Marina crescer.

O que eu quero chamar atenção com os parágrafos acima é da importância da simplicidade na comunicação. Ninguém consegue processar muita informação, principalmente se ela for complexa. Quebra de sigilo fiscal é complicado para o eleitorado da Dilma. Corrupção, nepotismo, cara de pau é simples.

Parece óbvio, mas seria se todos observassem a máxima a seguir: ninguém aceita aquilo que não entende. Pelo contrário: por mais benefício que possa trazer, se não houver entendimento, há rejeição.


Não mate o mensageiro

13 de setembro de 2010

Augusto Pinto

Eu estou terminando de ler (de um só fôlego), a trilogia da série “O Conquistador”, de Conn Iggulden. Se estiver curioso faça o download do 3o. livro da série e o melhor deles. A série narra a saga da vida de Genghis Khan, um conquistador implacável. Gengis, valorizava muito os mensageiros, que às vezes tinham que atravessar o deserto para dar uma mensagem que cabia numa simples frase. Mesmo assim, quando a mensagem era muito ruim, ou quando ela não poderia ser espalhada, Gengis não titubeava em matar o mensageiro na hora.

Não sei se vem daí a história, mas ficou a tradição segundo a qual os arautos das más mensagens merecem a “morte”. Por isso, no mundo corporativo um dos tipos de comunicação que mais assusta ao executivo é aquela que o encarrega de dar uma má notícia. Pode ser a demissão, uma má avaliação anual, explicar porque o cara foi preterido numa promoção, porque seu departamento não vai fazer os objetivos do ano, porque a empresa está perdendo dinheiro, etc, etc, etc, o que não falta no mundo corporativo são as más notícias. As más notícias podem ser passadas para um funcionário, ou para seu superior, em qualquer dos casos é uma autêntica “saia justa”.

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Comunicação solidária

1 de setembro de 2010

Augusto Pinto

Durante o evento Digital Age 2.0, o Marcelo Tripoli da iThink pontuou: “A comunicação digital, alem da clareza e da criatividade da mensagem, deve também prestar um serviço” (conceito de brand utility). Isso me intrigou e compartilhei com o Fran, que me devolveu um comentário ainda mais intrigante: “Na verdade, a comunicação deve prestar dois serviços, um de forma e outro de conteúdo. Na forma deve ser criativa e clara e no conteúdo prestar um serviço relevante ao público-alvo”.

Durante toda a semana fiquei pensando nesses dois comentários, relacionando prestação de serviço com solidariedade. Parece absurdo, mas nesse mundo maluco e agressivo em que vivemos a solidariedade é um valor em crescimento, talvez até por um medo reflexo do que pode acontecer com cada um de nós a qualquer momento.

Recentemente testemunhamos o dilúvio de contribuições de brasileiros para as vítimas do Haiti e das inundações do nordeste brasileiro. As contribuições foram tantas que o governo brasileiro chegou a pedir que ninguém mandasse mais nada, pois não havia como armazenar?! Esses exemplos não são exceção, são regra. Aconteceu no Katrina, no Tsunami há dois anos atrás e em todas as tragédias recentes que temos testemunhado. A moda da sustentabilidade é mais um sinal dessa boa tendência.

Como não podia deixar de ser, essa onda chegou também à comunicação, talvez muito impulsionada pelas comunidades na web e pelas redes sociais. O fato é que a comunicação egoísta, que só interessa ao emissor, geralmente preocupado em “vender algum peixe”, está com os dias contados. A comunicação em tempos de mídias sociais deve ser solidária, solidária com os interesses do público.

Isso afeta a todo aquele que trabalha com comunicação, sejam publicitários, marketeiros, ou simplesmente quem que precisa comunicar algo (um vendedor, um palestrante, um porta-voz, etc). O comunicador de sucesso deverá, antes de planejar seu conteúdo, estudar os interesses e necessidades da audiência. Parece óbvio, mas não é.

Geralmente, quem prepara uma apresentação, uma campanha, ou simplesmente ensaia um discurso, simplesmente pensa no que quer vender (os argumentos) em primeiro lugar, em segundo nas circunstâncias (contexto) e por último no público. O que deve acontecer é que deveremos passar a fazer uma engenharia reversa na hora de preparar uma apresentação, iniciando por entender as motivações do público, para só então pensar nos nossos argumentos e no conteúdo a ser apresentado.

A comunicação solidária de certa forma deve prestar um serviço. De alguma maneira, o conteúdo que passamos deve ter uma utilidade para a audiência, para que seja compreendido e disseminado. Imagine a seguinte notícia (real): “A Ford lança o Fusion híbrido no Brasil, no final de 2010”. Vamos imaginar a comunicação desse fato no fashion way (vendendo o produto) e na hype atual (prestando um serviço):

  • Comunicação à antiga, que apenas procura vender o produto (foco na mensagem): “O Fusion híbrido da Ford é potente e econômico, fazendo 17 kms por litro na cidade”.
  • Comunicação solidária: “Agora, com o Fusion híbrido da Ford você poderá comprar um carrão, sem peso na consciência. O Fusion é o primeiro carro sustentável do mercado brasileiro”.

Portanto, você aí que trabalha com comunicação, vá pensando numa forma de introduzir sustentabilidade e prestação de serviço em suas mensagens, ou prepare-se para ver a bola que você chuta bater na parede e voltar na sua cara.

Fran Papaterra

Apenas a título de provocação proponho o seguinte raciocínio. Não é que o mundo ficou mais solidário porque as pessoas ficaram mais solidárias. O mundo possibilitou às pessoas serem solidárias de uma maneira que era muito difícil, se não impossível, há pouco tempo.

Não me esqueço de um detalhe do livro Mauá de Jorge Caldeira. Mauá, de nome Irineu Evangelista de Sousa, foi, grosso modo, o primeiro capitalista do Brasil no final do século retrasado. Pois este homem pediu um empréstimo para um banco em Londres e o empréstimo veio de navio. Eram notas de libras que cruzaram o Oceano Atlântico até chegar, semanas depois, ao beneficiário do empréstimo. Hoje eu credito a mesada de minhas filhas em um cartão que elas usam no shopping ou na cantina da escola e consultam saldo na internet ou no caixa automático.

Se Mauá recebesse um crédito em conta, iria tratar da vida no dia seguinte, mas ficou, literalmente, a ver navios até poder agir. Resultado: estamos mais rápidos, podemos fazer mais coisas. E mais: estamos mais bem informados. Um telefone celular grava uma pancadaria da polícia no Irã e transmite o fato pela internet instantaneamente. Portanto, – e atenção para esta conclusão – estamos, todos, mais exigentes.

Aceitávamos celular sem sinal em boa parte da Berrini e hoje baixamos arquivos pelo celular. E ai da operadora se demorar!

Resumindo:

  1. Ficou possível ser mais solidário
  2. Estamos mais bem informados
  3. Ficou difícil nos enganar
  4. Estamos mais exigentes

Por um lado, ficou mais fácil, pois podemos baixar arquivos remotamente. Por outro lado, ficou mais difícil porque o destinatário do arquivo vai botar a boca no trombone se algo estiver errado ou for mentiroso.

E trombone aqui é uma mera metáfora: serve para mostrar que nossos diversos destinatários, como um trombone, podem fazer muito barulho. Mas, como toda metáfora explica apenas parte do que queremos explicar, convém dizer que nossos públicos contam com um trombone cujo som chega, quase que instantaneamente em quase todos os lugares.

Vamos ter que caprichar mais. Esta é a boa notícia para quem capricha e a má notícia para quem não.


Empatia vs qualidade do conteúdo

19 de agosto de 2010

Augusto Pinto

O que funciona melhor na comunicação verbal: empatia, ou conteúdo de interesse? Eta perguntinha difícil. Vamos direcionar nossa argumentação para a política. O Brizola e o Lula são bons exemplos de que empatia sem dúvida funciona. Mas, a relevância do conteúdo nem sempre é priorizada pela audiência.

As eleições 2010 são um bom campo de pesquisa para responder a essas questões. Todos os candidatos respondem com convicção, afirmando mentiras, ou não verdades, escandalosas. Nenhum deles tropeçou até aqui em função dessas imprecisões. A coisa é tão impressionante, que os candidatos conseguem passar suas imprecisões e meias verdades em plena bancada do Jornal Nacional, sem que o “casal 20” da Globo levante o cartão vermelho.

Por outro lado, os líderes da campanha presidencial, Dilma e Serra, não poderiam ser menos carismáticos. Temos aí um dilema: os campeões de empatia (ex.: Lula) apresentam conteúdo irrelevante e são ungidos, os lideres da campanha não empáticos também apresentam conteúdo irrelevante (quando não mentiroso) e nem por isso se prejudicam… afinal o que então é relevante para a audiência?

Eu acho que isso depende muito do grau de escolaridade da audiência e, no caso da política, da maturidade do eleitor. Quem já assistiu a um debate eleitoral nas TV’s americana e brasileira e comparou, conclui que lá os candidatos são muito mais cuidadosos com a precisão e o conteúdo de suas respostas.

Mas, lá e aqui, no entanto, o que mais importa é que o conteúdo seja aquele que a audiência quer ouvir. Mesmo nos USA, é muito difícil defender idéias que façam sentido, mas que sejam contrárias ao interesse da massa, por exemplo, mais tropas e mais dinheiro para gastar na guerra do Afeganistão.  Por aqui, os temas de interesse são outros. Vivemos ainda nos ingênuos tempos do “estado paizão” e do discurso nacionalista. Falar de privatizações (que salvaram nossa pele no governo FHC) é pecado mortal, mas falar da aumento dos salários de aposentados, ou do bolsa-família, não importa de onde venha o dinheiro, é IBOPE certo.

Conclusão: é fácil enganar o público quando falamos o que ele quer ouvir, mesmo que sejam batatinhas, ou, em outras palavras, capriche no recheio do pastel. Mas, se for de vento, é bom que a casquinha seja muito saborosa.

Fran Papaterra

Quanto mais velho fico, é inevitável, mais digo a palavra “depende”. Tudo depende, não existe template para o comportamento humano. Em meio a tantos “depende” algumas verdades vão se ressaltando. Uma delas é: o bom líder deve saber se comunicar. Outra: boa comunicação tem uma mensagem principal clara e profunda o suficiente a ponto de gerar interesse nas mensagens a ela subordinadas. Explico com os candidatos a líder do país.

Dilma tem uma mensagem principal claríssima: sou a herdeira do Lula. Quem não gosta nem de um nem de outro reclama da simplicidade da proposta. Mas, lembre-se, Lula tem 70% de aprovação e uma parte significativa dos 30% que desaprovam o Governo não votará em Dilma de maneira alguma. Portanto, a mensagem não se destina, por inoperante, ao eleitor fiel do Serra ou da Marina. Para quem gosta do Lula, a mensagem é um primor. Atenção: ser simples é uma vantagem, tá?

Serra vacila entre o bom Ministro da Saúde, aquele que continuará a obra de Lula, mas melhorará o que está bom (como assim?) e agora parte para um patético “Zé”, na esperança de ser identificado como alguém tão do povo quanto Lula. Cai a cada nova pesquisa de opinião. Cai porque não tem uma boa e simples mensagem e, por isto, muda de mensagem a toda hora.

O fato é que entre números exagerados, entrega de obras cujos projetos sequer estão prontos e falsas verdades sobressai-se a seguidora, a herdeira, a detentora do bastão do Lula.

Voltemos duas eleições presidenciais no tempo e nos lembremos do Lulinha paz e amor. Em tempos de Regina Duarte dizendo que tinha medo do PT porque detentor de um discurso que devia ter sido enterrado com a queda do Muro de Berlim, a mensagem do Lula foi: “gente eu não como criancinha”. Esqueça a sua avaliação e perceba como funcionou. Eu, que votei no Serra, cheguei a afirmar à altura da metade do primeiro mandato do PT que, se soubesse que a política econômica seria mantida em sua essência, ou seja, que Lula não come criancinha, até votaria no Lula.

A técnica da boa mensagem principal não é novidade. Os irmãos Grimn e Walt Disney contaram histórias que terminavam com a mensagem principal, a “moral da história”. Por exemplo, a moral da história do chapeuzinho vermelho é: obedeça a sua mãe. Tudo que acontece, lobo mau, lenhador, doces para vovozinha, tudo está a serviço de mostrar para as criancinhas que elas devem obedecer às respectivas mães.

A diferença é que crianças ouvem histórias centenas de vezes e as narrativas tanto dos Grimn quanto de Disney revelam a moral da história no fim. No mundo das empresas ninguém ouve uma história mais do que uma vez e, por isto, convém dizer a mensagem principal logo no início e formulá-la de maneira ao público alvo perceber benefícios e se interessar em ouvir toda a história.

Em uma apresentação corporativa eu iniciaria a história do chapeuzinho vermelho assim: obedecer a sua mãe aumenta seu IBTDA em 20%.  Todos iriam querer saber a respeito de lobos maus, caminhos da floresta, pela estrada afora eu vou bem sozinha.


A Marina e a campanha na Internet

11 de agosto de 2010

Augusto Pinto

Depois do Obama em 2008 as campanhas eleitorais nunca mais serão as mesmas. Reproduzindo um trechinho de matéria do NYT a respeito: “Usando a Internet Obama reescreveu as regras sobre como alcançar os eleitores, organizar os doadores e apoiadores, gerenciar as notícias na mídia, acompanhar e moldar a opinião pública e enfrentar os ataques políticos, inclusive vindos de blogs, inexistentes quatro anos atrás.”

Claro está que essa experiência marcante não poderia deixar de influenciar a campanha presidencial brasileira de 2010. Todos os candidatos estão usando e abusando da Internet e das redes sociais para se aproximarem de seus (potenciais) eleitores. A Dilma inclusive comprou consultoria do Ben Self, guru Internet do Obama, para orientar seu marketing político online.

Mas, a despeito de todo o esforço, a Internet ainda se constitui um desafio para aqueles que se acostumaram simplesmente a disparar informações, muitas delas mentiras grosseiras, para cima do eleitor. E, como sabemos, na Internet a manipulação da informação e a mentira não ficam impunes, se transformando numa arma contra quem fez o “disparo torto”. Além disso, os internautas demandam espontaneidade de seus interlocutores. Todo o sucesso do Obama só aconteceu porque ele realmente se engajou, de peito aberto, no debate com os eleitores nas redes sociais. Isso expõe muito e os políticos brasileiros odeiam entrar em jogos onde as cartas não estejam previamente marcadas.

Dos muitos presidenciáveis, apenas três podem alcançar o trono do Lula: Dilma, Serra, ou Marina. Claro está que cada uma dessas três personagens têm perfis muito diferentes, o que pode facilitar, ou atrapalhar, sua atuação na WWW. A Dilma é mandona, “queixo duro”, prolixa e dificilmente terá sucesso num corpo a corpo online com os eleitores. O Serra, apesar de também “queixo duro”, é mais transparente e se dispõe a enfrentar debates de peito aberto. Como ele é notívago, manda muito bem no Twitter, mesmo que de vez em quando se meta em algumas frias. E aí resta a Marina. Ah, a Marina é nosso Obama de saias, entrou na Internet com a naturalidade de “pinto no lixo”.

A Marina dificilmente vai virar a tendência de vitória da Dilma, até pela grana, pelo poder de influência do executivo e pelo carisma do Lula, mas eu acho que ela ainda vai fazer estragos no terreiro dos outros candidatos, graças à Internet. A campanha da Marina na Internet está muito bem bolada.  Existe o site de campanha, o ”Minha Marina”, e um blog para interagir com os eleitores. No “Minha Marina” é possível baixar-se o kit de campanha, com fotos, marca, ringtones, jingle, wallpapers, e banners. Enquanto isso, o blog da Dilma confunde “colaboração” com pedir dinheiro.

A Marina vem usando o Twitter (@silva_marina) para angariar apoio, numa campanha muito bem feita.

As diretrizes de governo da Marina são amplas, estão publicadas na web e foram desenvolvidas em parceria com a sociedade.

Enquanto isso, as diretrizes da Dilma, foram publicadas na Internet sem nenhuma visão de direcionamento. São fragmentos de intenções, calcadas em ideologias, a maioria delas de cunho nacionalista, tais como prioridade para a reforma agrária, casamento entre homosexuais, tributação de grandes fortunas, redução da jornada de trabalho e controle dos meios de comunicação.

A Marina não terá marketeiro em sua campanha. Ela está desenvolvendo um movimento espontâneo pela Internet, os “Marketeiros Solidários”, constituído por profissionais e interessados em criar slogans, materiais de campanha, e bolar idéias criativas para fazer o movimento “Marina Presidente” atingir um grupo maior de pessoas.

Outra ideia legal da campanha da Marina foi a “Casa de Marina”, um espaço de encontro, debate e reunião das pessoas, de distribuição de material de campanha, onde pessoas podem obter informações sobre Marina, suas idéias, seu programa de governo e as formas possíveis de apoio e colaboração com a campanha. É um movimento de rede social física, iniciado sempre pela Internet.

À semelhança do Obama, a Marina também promete usar a Internet como ferramenta de governo, permitindo que os cidadãos opinem sobre suas ações e projetos de lei a serem enviados ao congresso.

Será que isso tudo vai dar resultado e virar o jogo a favor da Dilma? Difícil dizer, mas eu pessoalmente duvido. O fato é que hoje a Marina lidera em share positivo na Internet, segundo pesquisa de início de julho da MM Online, em parceira com a iGroup,, com 43% contra 34% da Dilma e longínquos 22% do Serra (lamentável!).

Qualquer que seja o resultado, a campanha da Marina será um divisor de águas com relação ao uso da Internet como um canal importante(íssimo) de comunicação com o eleitorado.

PS: eu não vou votar na Marina, pois temos colorações ideológicas distintas…

Fran Papaterra

É indiscutível o poder da internet. Acho que este poder será maior quando todos aprendermos a usar e, paralelamente, houver a inevitável migração de TV, cinema, música, notícias, livros para quase que exclusivamente a internet. A migração se fará por tecnologia e por hábito. Por exemplo, eu ainda compro CD, minhas filhas nunca compraram CD. Minhas filhas ainda (atenção para o ainda) lêem livro em papel.

Porém, acho que hoje, até porque ainda não se aprendeu a usar este veículo absurdamente revolucionário, o poder da internet é super estimado. Divulga-se o número de usuários do Face Book, mas não vi muita coisa sobre a qualidade do que se comunica lá. Eu aceitei entrar nesta rede, devo estar nesta estatística, e, simplesmente, não consegui usar. Achei uma bagunça! Toda hora tem gente querendo ser minha amiga. Amiga? Como assim, não conheço a pessoa e ela quer ser minha amiga? Parece coisa de recreio de escola de primeiro grau: “quer ser meu amigo?”.

Tudo isto para dizer que discordo da previsão do Augusto de que Marina vai virar o jogo através da internet. Usarei argumentos que pouco têm a ver com minha resistência em participar das redes sociais. Redigi os dois parágrafos acima para você que me lê desconfiar de mim. Como uso pouco a internet, pode ser que não esteja vendo coisas que quem usa vê.

De qualquer forma, acho que as comparações com os Estados Unidos devem ser relativizadas e cito cinco fatores inquestionáveis para tal:

  1. Lá a internet tem penetração maior do que aqui
  2. Nos Estados Unidos não há horário eleitoral gratuito na TV
  3. Lá não é obrigatório votar e a internet foi importante para convencer o cidadão a sair de casa e votar.
  4. Aqui contribuem para campanha apenas empresas com interesse em obter benefício do Governo. As contribuições individuais são ínfimas.
  5. Muito do que se fala do uso que Obama fez da internet. Mas pouco se fala que este uso foi para a indicação dele para concorrer pelo Partido Democrata. Neste ponto, Obama e a internet foram campeões, pois a concorrência era ninguém mais, ninguém menos que Hillary Clinton. Mas, aqui no Brasil as indicações dos partidos já ocorreram e não se sabe como ocorreram. Não houve internet que convencesse o Lula que o PT não indicaria a Dilma nem Aécio que convencesse o Serra a desistir.

Adiciono ainda uma dúvida pessoal com relação ao habitual uso da internet em terras brasileiras. Aqui, me parece, se usa a internet mais para reforçar opiniões já formadas e forjar notícias. Veja-se a incrível capacidade dos políticos, principalmente ligados ao PT, de produzirem dossiês contra adversários.
Isto não quer dizer que a internet não seja o veículo do futuro, inclusive com relação à política. Mas, aqui no Brasil, estamos muito atrasados nesta e em outras matérias. O que quer dizer que aqui o futuro vai demorar mais para chegar, se é que chegará.

Talvez o país do futuro não tenha futuro.


Dilma ou Lula, quem é o mais chato falando?

21 de julho de 2010

Augusto Pinto

Depende. Depende de sua coloração ideológica e do objetivo da fala. Eu pessoalmente acho os dois chatésimos. Ideologicamente sou o oposto deles, defendendo o liberalismo econômico e as leis de mercado, o estado entrando apenas como regulador e fazendo os investimentos sociais necessários (sempre que for de todo impossível arrancar isso dos empresários).

O Lula é um speaker soberbo, um verdadeiro “encantador de serpentes”, mas arrogante ao extremo em sua incomensurável ignorância, e simplista. Suas análises são de chorar (às vezes de chorar de rir), como por exemplo a lição que ele tentou dar aos europeus recentemente sobre “como estimular suas economias”.

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