Augusto Pinto
Quando eu vi a pré-campanha da “Devassa Bem Loura”, denominada de “Bem Misteriosa”, não saquei que era propaganda de cerveja e muito menos que aquele monumento fosse a Paris Hilton. Tomado pela curiosidade, ou quem sabe esperando ver um pouquinho mais, eu entrei no site da campanha e aí entendi a jogada.
Fiquei ligado e em seguida veio a campanha propriamente dita, que manteve o nível da pré-campanha, ou seja, a Paris continuava monumental! Pra quem não teve a oportunidade, sugiro assistir agora a esse literalmente delicioso comercial.
Fiquei esperando mais, ou talvez menos, muito menos (roupa), mas, para minha surpresa, lá vem o Conar e proibe a campanha, classificando-a como “sexista e desrespeitosa”!? Eu, e provavelmente a Schincariol, ficamos decepcionados e surpresos. Por que diabos, em pleno Carnaval, onde milhares de bundas e peitos maravilhosos são mostrados em todo o Brasil a pobre louraça gringa é impedida de fazer seu “rebolation” para nós, pobres mortais?
Parecia combinado com o Conar, quando a Devassa Loura (não a cerveja, mas a Paris) vai pro Carnaval do Rio e, em pleno camarote da Schincariol, toma um porre de cair.
Tudo isso me surpreendeu duas vezes. Em primeiro lugar, fiquei pasmo com o puritanismo dos brasileiros e com a bronca das mulheres com a pobre Paris. Nas redes sociais a mulherada caiu de pau na Devassa! A segunda surpresa foi a reação do público ao cancelamento da campanha da Mood. Após a cassação, por liminar do Conar, os internautas criaram o movimento #voltadevassa no Twitter e o filme da Devassa bombou no Youtube (+400 mil acessos). Em menos de três horas, a ação atingiu quatro mil citações na internet. A proibição também influenciou as vendas da marca. Segundo Luiz Cláudio Taya, diretor de marketing do Grupo Schincariol, pelo menos duas redes de supermercados aumentaram os pedidos de Devassa depois da decisão do Conar.
Aproveitando a onda, numa outra sacada genial dos publicitários, a cervejaria estreou um novo anúncio televisivo, no qual uma tarja preta foi colocada sobre os seios da Pin-Up que estampa o rótulo da cerveja. Antes do filme, a marca convida os consumidores que discordam da decisão do Conar a assistir a propaganda na internet.
Tudo isso me convenceu que, realmente, comunicação e futebol são sempre caixinhas de surpresa, se me permitem o lugar comum.
Fran Papaterra
O caso Devassa permite, pelo menos, duas leituras. A primeira é de ordem ética e para isto vou pegar carona no que escreveu Ruy de Castro na Folha de São Paulo de hoje. A censura (sejamos claros, vamos dar nome certo aos bois) do Conar gerou um falatório sobre o uso (de novo, a palavra certa) da mulher na propaganda de cerveja. Pouco se falou na propaganda de cerveja, bebida alcoólica que consegue fazer propaganda por razões ignoradas por mim (o que se escreveu por aí não me convenceu). Enquanto isto, as demais bebidas alcoólicas (só mais fortes se consumidas em quantidade igual) estão proibidas de freqüentar a mídia convencional e fazem companhia ao cigarro. Menos ainda se falou do “eu sou brahmeiro” que já usou (mesma palavra que serve para a Juliana Paes, a boa) o Ronaldo Fenômeno e o Dunga para associar (imagine!) beber cerveja com esporte.
A segunda leitura é de ordem mercadológica e sociológica ao mesmo tempo. Eu lembro que vi a propaganda da Devassa. Quando vi aquela loira rebolando na TV e fazendo a alegria de um bando de idiotas na praia e um idiota específico com uma máquina fotográfica, prometi a mim mesmo não beber aquela marca. Não percebi que a loira era a Paris Hilton (não faço questão nenhuma de reconhecê-la) e me esqueci do assunto. Agora, o Conar conseguiu que eu me lembrasse da propaganda e entrasse no Youtube para assistir de novo.
Mais ainda: já comentei com muita gente que não sabia da propaganda, ficou sabendo da coisa pelo barulho que gerou e entrou no Youtube para ver. Augusto escreve 400 mil e eu já vi no Youtube que estamos, 2 horas depois, em 620 mil. Some-se a isto que, talvez lembranças da ditadura, temos a tendência de nos simpatizarmos pelos perseguidos.
Quer dizer, o Conar conseguiu que a Devassa deixasse de gastar dinheiro em mídia e gerasse uma audiência de mais de, neste momento, 620 mil pessoas com duas características muito interessantes para a cerveja: pessoas atentas e veiculação gratuita. O pessoal da Devassa deveria erguer uma estátua ao Conar.